
A questão do poder não é o mais velho desafio formulado pelas análises de Foucault. Surgiu em determinado momento de suas pesquisas assinalando uma reformulação de objetivos teóricos e políticos que, se não estavam ausentes dos primeiros livros, ao menos não eram explicitamente colocados complementando o exercício de uma arqueologia do saber pelo projeto de uma genealogia do poder. Qual a grande inovação metodológica assinalada em 1961 pela história da loucura? A resolução de estudar em diferentes épocas e sem se limitar a nenhuma disciplina e saberes sobre a loucura, para estabelecer o momento exato e as condições de possibilidade do nascimento da Psiquiatria, projeto este que deixou de considerar a história de uma ciência como o desenvolvimento linear e contínuo, a partir de origens que se perdem no tempo e são alimentadas pela interminável busca de precursores, mas que também se realizava sem privilegiar a distinção epistemológica entre ciência e pré ciência, tendo no saber o campo próprio de investigação. O objetivo da análise é estabelecer relações entre os saberes, cada um considerado como possuindo positividade específica: a positividade do que foi efetivamente dito deve ser aceito como tal e não julgado a partir de um saber posterior e superior, para que destas relações surjam, em uma mesma época ou em épocas diferentes, compatibilidades e incompatibilidades que não sancionam ou invalidam, mas estabelecem irregularidades que permitem individualizar formações discursivas. A partir de então, a história da loucura deixava de ser a história da Psiquiatria. Esta era, ao mesmo tempo, o momento determinado de uma trajetória mais ampla, cujas rupturas ao nível do saber permitem isolar diferentes períodos ou épocas e o resultado desse mesmo processo. Outra novidade metodológica foi não se limitar ao nível do discurso para dar conta da questão da formação histórica da Psiquiatria. Neste sentido, a análise procurou centrar-se nos espaços institucionais de controle do louco, descobrindo, desde a época clássica, uma heterogeneidade entre os discursos teóricos, sobretudo médicos, sobre a loucura e as relações que se estabelecem com o louco nesses lugares de reclusão. Articulando o saber médico com as práticas de internamento e estas com instâncias sociais, como a política, a família, a Igreja, a Justiça, generalizando a análise e até as causas econômicas e sociais das modificações institucionais, foi possível mostrar como a Psiquiatria, invés de ser quem descobriu a ciência da loucura e a libertou, é a radicalização de um processo de dominação do louco que começou muito antes dela e tem condições de possibilidades tanto teóricas, quanto práticas. O nascimento da clínica, em 1963, retoma e aprofunda uma questão presente, mas pouco tematizada no livro anterior: a diferença entre a medicina moderna e a clássica. O livro não se limita a uma inter-relação conceitual de saberes que demonstra como o conhecimento da doença considerada como essência abstrata cede lugar a um saber moderno do indivíduo como corpo doente.
PARA LER OU FAZER DOWNLOAD CLIQUE AQUI
este post foi retirado do espaço do COLETIVO SABOTAGEM
abraxxxxxxxxxxxxxxx
alto astral
somdoroque
0 comentários:
Postar um comentário