recebi este e-mail do professor wilson senne:
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Olá pessoas:
Seguem dois textos do caderno especial da Folha sobre os significados da vitória de Barack Obama.Bons autores, diga-se: Peter Burke e Slavoj Zizek. De outros textos mais que li, não encontrei muita coisa interessante... A não ser talvez o comentário da profa. Ivana Bentes, da Escola de Comunicação da UFRJ, entrevistada da Folha de hoje, sobre o papel das mídias na campanha do candidato: “Os eleitores de Obama mobilizaram a blogosfera. O candidato teve recorde de doações pela internet para sua campanha, sendo financiado pelos próprios eleitores, fato inédito. Respondeu a acusações postando vídeos no YouTube, disseminando imagens no Flickr, mensagens diretas para os celulares dos eleitores e mensagens instantâneas no Twitter, seguidas por milhões na rede. A possibilidade de uma "democracia participativa" (apesar do caráter representativo e indireto do sistema de votação nos EUA) surge nessa forma potencial de uso das redes sociais, de relacionamento e compartilhamento. Por meio delas, o eleitor constrói a informação, intervém nos discursos, reage contra a mídia tradicional, repercute, interage e se mobiliza numa forma de ativismo que coloca em xeque a centralidade da mídia tradicional e da democracia representativa. TVs e jornais tiveram que se associar à internet, ao YouTube, fazer debates on-line com a participação dos internautas. Um dos primeiros fatos midiáticos na campanha de Obama surgiu quando uma eleitora escreveu o nome do candidato no traseiro, criou um jingle divertido e postou esse vídeo de "agitprop" no YouTube, obtendo milhões de cliques de atenção na mídia global. Num só ato, sublinhou a caretice do marketing político tradicional e apontou para uma questão decisiva: cultura política descentralizada, heterogênea e novas formas de ativismo.”
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MESTIÇO BELEZA
ELEIÇÃO DE BARACK OBAMA DEVE REPRESENTAR MUDANÇA DRÁSTICA NO IMAGINÁRIO CULTURAL SOBRE OS EUA DENTRO E FORA DO PAÍS
PETER BURKE COLUNISTA DA FOLHA Na noite em que Barack Obama foi eleito, eu estava numa festa no Harlem [em Nova York]. A festa era mista sob um aspecto -os convidados eram de todas as cores-, mas uniforme sob outro: éramos todos partidários de Obama. Quando os resultados foram anunciados, a reação de nosso anfitrião, um americano branco, de meia-idade, do Tennessee, foi: "Recebi meu país de volta!". Pela primeira vez em oito anos ele pôde sentir orgulho de ser americano. Foi libertado do peso de uma vergonha, e, nesse sentido, seu imaginário cultural, e o de pessoas como ele, foi transformado. Por outro lado, a visão de mundo ou o imaginário cultural de americanos de pequenas cidades do interior, de cujos contingentes são recrutados muitos dos partidários de John McCain e Sarah Palin [republicanos], deve ter recebido um golpe duro com sua derrota, obrigando essas pessoas a tomar consciência do fato de que a maioria dos americanos -embora essa maioria seja relativamente pequena- não compartilha suas opiniões. A maior mudança, evidentemente, deve se dar no imaginário cultural dos americanos negros -uma mudança de grande peso no horizonte de suas expectativas. No Harlem, depois do anúncio dos resultados da eleição, a rua, até então quieta, onde nossa festa estava acontecendo, foi iluminada por fogos de artifício. Pessoas saíram às escadas de suas casas, gritando, felizes, e aplaudindo para os carros que passavam e que respondiam buzinando. No dia seguinte à eleição, um repórter na TV contou a história de um garoto afro-americano ambicioso que tinha dito a seus pais que, quando crescesse, queria candidatar-se a uma vaga no Congresso. No dia 4 de novembro ele mudou de idéia e disse a seus pais que queria candidatar-se a presidente.
Nação preparadaVinte anos atrás, quando o pastor Jesse Jackson tentou pela segunda vez obter a indicação a candidato presidencial pelo Partido Democrata, algumas pessoas comentaram que "o país ainda não estava preparado" para um candidato afro-americano. Agora, ficou claro que está. Numa cultura em que as pessoas admiram os "vencedores" e desprezam os "perdedores", a vitória de Obama tem conseqüências culturais ainda maiores do que poderia ter em outros lugares -embora a imagem vista na TV americana de quenianos comemorando a eleição de um "deles" foi um lembrete vívido do impacto global deste acontecimento. Mesmo assim, para um observador de fora, seja ele inglês ou brasileiro, pode muito bem parecer que a eleição de Obama não teve -ou ainda não teve- as conseqüências culturais que se poderiam prever. Desse ponto de vista, o fato significativo é que Obama não é "negro", como os norte-americano o descrevem, mas mulato. Ele tem familiares brancos, além de negros. Sua conhecida política de procurar reconciliar pontos de vista opostos -expressa na noite da eleição em seu apelo a McCain para unir-se a ele para fazer frente à crise da América- com certeza é reforçada por suas origens mistas e pode até ter sua origem nelas. A posição de Obama de chefe de Estado também contesta a percepção tradicional dos EUA como sendo divididos em duas partes, uma branca e uma negra. Se sua eleição puder ajudar a dissolver essa percepção, será a maior transformação de todas no imaginário cultural dos norte-americanos.
PETER BURKE é historiador inglês, autor de "O Que É História Cultural?" (ed. Zahar). Escreve na seção "Autores", do Mais! .Tradução de Clara Allain.
ELEIÇÃO DE BARACK OBAMA DEVE REPRESENTAR MUDANÇA DRÁSTICA NO IMAGINÁRIO CULTURAL SOBRE OS EUA DENTRO E FORA DO PAÍS
PETER BURKE COLUNISTA DA FOLHA Na noite em que Barack Obama foi eleito, eu estava numa festa no Harlem [em Nova York]. A festa era mista sob um aspecto -os convidados eram de todas as cores-, mas uniforme sob outro: éramos todos partidários de Obama. Quando os resultados foram anunciados, a reação de nosso anfitrião, um americano branco, de meia-idade, do Tennessee, foi: "Recebi meu país de volta!". Pela primeira vez em oito anos ele pôde sentir orgulho de ser americano. Foi libertado do peso de uma vergonha, e, nesse sentido, seu imaginário cultural, e o de pessoas como ele, foi transformado. Por outro lado, a visão de mundo ou o imaginário cultural de americanos de pequenas cidades do interior, de cujos contingentes são recrutados muitos dos partidários de John McCain e Sarah Palin [republicanos], deve ter recebido um golpe duro com sua derrota, obrigando essas pessoas a tomar consciência do fato de que a maioria dos americanos -embora essa maioria seja relativamente pequena- não compartilha suas opiniões. A maior mudança, evidentemente, deve se dar no imaginário cultural dos americanos negros -uma mudança de grande peso no horizonte de suas expectativas. No Harlem, depois do anúncio dos resultados da eleição, a rua, até então quieta, onde nossa festa estava acontecendo, foi iluminada por fogos de artifício. Pessoas saíram às escadas de suas casas, gritando, felizes, e aplaudindo para os carros que passavam e que respondiam buzinando. No dia seguinte à eleição, um repórter na TV contou a história de um garoto afro-americano ambicioso que tinha dito a seus pais que, quando crescesse, queria candidatar-se a uma vaga no Congresso. No dia 4 de novembro ele mudou de idéia e disse a seus pais que queria candidatar-se a presidente.
Nação preparadaVinte anos atrás, quando o pastor Jesse Jackson tentou pela segunda vez obter a indicação a candidato presidencial pelo Partido Democrata, algumas pessoas comentaram que "o país ainda não estava preparado" para um candidato afro-americano. Agora, ficou claro que está. Numa cultura em que as pessoas admiram os "vencedores" e desprezam os "perdedores", a vitória de Obama tem conseqüências culturais ainda maiores do que poderia ter em outros lugares -embora a imagem vista na TV americana de quenianos comemorando a eleição de um "deles" foi um lembrete vívido do impacto global deste acontecimento. Mesmo assim, para um observador de fora, seja ele inglês ou brasileiro, pode muito bem parecer que a eleição de Obama não teve -ou ainda não teve- as conseqüências culturais que se poderiam prever. Desse ponto de vista, o fato significativo é que Obama não é "negro", como os norte-americano o descrevem, mas mulato. Ele tem familiares brancos, além de negros. Sua conhecida política de procurar reconciliar pontos de vista opostos -expressa na noite da eleição em seu apelo a McCain para unir-se a ele para fazer frente à crise da América- com certeza é reforçada por suas origens mistas e pode até ter sua origem nelas. A posição de Obama de chefe de Estado também contesta a percepção tradicional dos EUA como sendo divididos em duas partes, uma branca e uma negra. Se sua eleição puder ajudar a dissolver essa percepção, será a maior transformação de todas no imaginário cultural dos norte-americanos.
PETER BURKE é historiador inglês, autor de "O Que É História Cultural?" (ed. Zahar). Escreve na seção "Autores", do Mais! .Tradução de Clara Allain.
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O PESADELO DOS HERÓIS
TENTATIVA DE LIMPAR PROGRAMA POLÍTICO DE TEMAS POLÊMICOS PODE LEVAR OBAMA A TER O MESMO DESTINO MARGINAL DE LUTHER KING
SLAVOJ ZIZEKCOLUNISTA DA FOLHA Em janeiro passado, quando os EUA lembravam a trágica morte do reverendo Martin Luther King Jr. [1929-68], um professor de história urbana na Universidade de Buffalo chamado Henry Louis Taylor Jr. comentou com amargura: "Tudo o que sabemos é que esse sujeito tinha um sonho. Não sabemos que sonho era esse". Taylor referia-se a um apagamento da memória histórica depois da marcha de King em Washington em 1963, após ter sido ovacionado como "o líder moral de nossa nação". Nos anos que antecederam sua morte, King mudou seu enfoque para a pobreza e o militarismo porque achava que abordar esses temas -e não somente a fraternidade racial- era crucial para tornar a igualdade real. E ele pagou o preço por essa mudança, tornando-se cada vez mais um pária. O perigo para Barack Obama é que ele tenha feito consigo mesmo o que a censura histórica posterior fez a Martin Luther King: limpou seu programa de temas polêmicos para garantir sua elegibilidade. Em um famoso diálogo na sátira religiosa de Monty Python "A Vida de Brian", passada na Palestina na época de Cristo, o líder de uma organização revolucionária de resistência judaica afirma apaixonadamente que os romanos só trouxeram sofrimento para os judeus. Quando seus seguidores comentam que, bem, eles introduziram a educação, construíram estradas, irrigação etc., o líder conclui, triunfal: "Está bem, mas fora o saneamento, a educação, o vinho, a ordem pública, a irrigação, as estradas, o sistema de água potável e a saúde pública, o que os romanos fizeram por nós?". Os últimos pronunciamentos de Obama não seguiram a mesma linha? "Represento uma ruptura radical com o governo Bush!" ou "está bem, prometo apoiar Israel incondicionalmente, manter o boicote a Cuba, garantir imunidade às companhias de telecomunicações que burlam a lei, mas ainda represento uma ruptura radical com o governo Bush!". Quando Obama fala sobre a "audácia de ter esperança", sobre "uma mudança em que podemos acreditar", está usando uma retórica de mudança sem conteúdo específico: esperança em quê? Mudar o quê? Não devemos culpar Obama por sua hipocrisia. Dada a complexa situação dos EUA no mundo atual, até onde um novo presidente pode impor mudanças reais sem provocar um derretimento econômico ou uma revolta política?
Dizer e não-dizerMas essa visão pessimista ainda é inadequada. Nossa situação global não apenas é uma realidade concreta, mas também é definida por contornos ideológicos. Em outras palavras, é definida pelo que é dizível e indizível ou pelo que é visível e invisível. Mais de uma década atrás, quando o jornal israelense "Haaretz" perguntou ao então líder do Partido Trabalhista, Ehud Barak, o que ele teria feito se tivesse nascido palestino, Barak respondeu: "Eu teria entrado para uma organização terrorista". Essa declaração não tinha absolutamente nada a ver com endossar o terrorismo, mas tudo a ver com abrir um espaço para um diálogo real com os palestinos. O mesmo ocorreu quando o presidente soviético Mikhail Gorbatchov lançou os slogans da "glasnost" (abertura) e da perestroika (reforma). Não importava se Gorbatchov "realmente queria dizer isso". As próprias palavras desencadearam uma avalanche que mudou o mundo. Palavras nunca são "só palavras". Elas importam porque definem os contornos do que podemos fazer. Nesse sentido, Obama já demonstrou uma capacidade extraordinária de mudar os limites do que pode ser dito publicamente. Sua grande conquista até hoje é que ele, com sua maneira refinada e não provocativa, apresentou ao público temas de discurso que, outrora, já foram indizíveis: a persistente importância da raça na política, o papel positivo dos ateus na vida pública, a necessidade de conversar com "inimigos" como o Irã.
Novas palavras E essa é uma grande conquista, que muda as coordenadas de todo o campo. Até mesmo o governo Bush, que primeiro criticou Obama por sua proposta, hoje está conversando diretamente com o Irã. Se a política americana quiser se livrar de seu atual impasse, precisa de novas palavras que mudem nossa maneira de pensar e agir.
TENTATIVA DE LIMPAR PROGRAMA POLÍTICO DE TEMAS POLÊMICOS PODE LEVAR OBAMA A TER O MESMO DESTINO MARGINAL DE LUTHER KING
SLAVOJ ZIZEKCOLUNISTA DA FOLHA Em janeiro passado, quando os EUA lembravam a trágica morte do reverendo Martin Luther King Jr. [1929-68], um professor de história urbana na Universidade de Buffalo chamado Henry Louis Taylor Jr. comentou com amargura: "Tudo o que sabemos é que esse sujeito tinha um sonho. Não sabemos que sonho era esse". Taylor referia-se a um apagamento da memória histórica depois da marcha de King em Washington em 1963, após ter sido ovacionado como "o líder moral de nossa nação". Nos anos que antecederam sua morte, King mudou seu enfoque para a pobreza e o militarismo porque achava que abordar esses temas -e não somente a fraternidade racial- era crucial para tornar a igualdade real. E ele pagou o preço por essa mudança, tornando-se cada vez mais um pária. O perigo para Barack Obama é que ele tenha feito consigo mesmo o que a censura histórica posterior fez a Martin Luther King: limpou seu programa de temas polêmicos para garantir sua elegibilidade. Em um famoso diálogo na sátira religiosa de Monty Python "A Vida de Brian", passada na Palestina na época de Cristo, o líder de uma organização revolucionária de resistência judaica afirma apaixonadamente que os romanos só trouxeram sofrimento para os judeus. Quando seus seguidores comentam que, bem, eles introduziram a educação, construíram estradas, irrigação etc., o líder conclui, triunfal: "Está bem, mas fora o saneamento, a educação, o vinho, a ordem pública, a irrigação, as estradas, o sistema de água potável e a saúde pública, o que os romanos fizeram por nós?". Os últimos pronunciamentos de Obama não seguiram a mesma linha? "Represento uma ruptura radical com o governo Bush!" ou "está bem, prometo apoiar Israel incondicionalmente, manter o boicote a Cuba, garantir imunidade às companhias de telecomunicações que burlam a lei, mas ainda represento uma ruptura radical com o governo Bush!". Quando Obama fala sobre a "audácia de ter esperança", sobre "uma mudança em que podemos acreditar", está usando uma retórica de mudança sem conteúdo específico: esperança em quê? Mudar o quê? Não devemos culpar Obama por sua hipocrisia. Dada a complexa situação dos EUA no mundo atual, até onde um novo presidente pode impor mudanças reais sem provocar um derretimento econômico ou uma revolta política?
Dizer e não-dizerMas essa visão pessimista ainda é inadequada. Nossa situação global não apenas é uma realidade concreta, mas também é definida por contornos ideológicos. Em outras palavras, é definida pelo que é dizível e indizível ou pelo que é visível e invisível. Mais de uma década atrás, quando o jornal israelense "Haaretz" perguntou ao então líder do Partido Trabalhista, Ehud Barak, o que ele teria feito se tivesse nascido palestino, Barak respondeu: "Eu teria entrado para uma organização terrorista". Essa declaração não tinha absolutamente nada a ver com endossar o terrorismo, mas tudo a ver com abrir um espaço para um diálogo real com os palestinos. O mesmo ocorreu quando o presidente soviético Mikhail Gorbatchov lançou os slogans da "glasnost" (abertura) e da perestroika (reforma). Não importava se Gorbatchov "realmente queria dizer isso". As próprias palavras desencadearam uma avalanche que mudou o mundo. Palavras nunca são "só palavras". Elas importam porque definem os contornos do que podemos fazer. Nesse sentido, Obama já demonstrou uma capacidade extraordinária de mudar os limites do que pode ser dito publicamente. Sua grande conquista até hoje é que ele, com sua maneira refinada e não provocativa, apresentou ao público temas de discurso que, outrora, já foram indizíveis: a persistente importância da raça na política, o papel positivo dos ateus na vida pública, a necessidade de conversar com "inimigos" como o Irã.
Novas palavras E essa é uma grande conquista, que muda as coordenadas de todo o campo. Até mesmo o governo Bush, que primeiro criticou Obama por sua proposta, hoje está conversando diretamente com o Irã. Se a política americana quiser se livrar de seu atual impasse, precisa de novas palavras que mudem nossa maneira de pensar e agir.
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abraxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
alto astral
roquinho
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1 comentários:
Muito bom! Peter Burke é bastante sensato, sempre.
Roque, será que você poderia redisponibilizar o CD dos Tincoãs para baixar?
Obrigada!
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